Comprar um Violão
August 28
Atendendo a sugestão de um dos leitores, este post tem como objetivo fazer alguns comentários sobre a construção e escolha na hora da compra de violões para o estudo do violão erudito, em um nível gradativo de experiência musical (e infelizmente financeiro). O comentário do leitor também sugeria a discussão sobre encordoamentos, mas essa fica para a próxima.
Os violões são fabricados, à grosso modo, por dois modos de produção: os que são feitos em linhas de montagem, em fábricas; e os que são feitos artesanalmente, por luthiers. Ao contrário do que se pode pensar, baseando-se na indústria automobilística ou informática, os violões artesanais na grande maioria das vezes são os que melhor desempenham sua função. O processo da fabricação requer extremo cuidado na escolha do material, na espera da secagem de cada parte, no lixamento, e nas tantas outras minúcias que podem fazer a diferença de um bom violão para um violão ruim.
Violões de fábrica são difíceis de se dar uma opinião. Não podemos esperar um violão de concertista - uma grande projeção, um timbre legal e um bom volume -, mas podemos achar violões que suprem as necessidades de estudo. A princípio, duas marcas brasileiras cumprem bem o papel para o estudante iniciante no instrumento - Giannini e Di Giorgio. Ambas tem violões com um custo/benefício interessante, e com pouco investimento inicial consegue-se ter algum tempo sem reclamações. Não recomendo outras marcas como Tonante e Kashima, violões comuns de se achar em qualquer lugar, inclusive lojas de máquina fotográfica. É difícil arranjar um desses instrumentos que não tenha problema de afinação ou empenamento de braço depois de algum tempo.
Nesse momento do aprendizado, o necessário é ter um violão que não apresente problemas de afinação, que não trasteje e que a ação das cordas não seja muito alta. Violões feitos em larga escala tem uma chance maior de terem esses defeitos em relação aos violões artesanais, pelo controle de qualidade às vezes não ser tão eficiente. Para isso, algumas coisas que devem ser vistas na compra:
- Fazer um acorde com pestana próximo da casa 12, sentindo a força que será exigida da mão. Se as cordas estiverem muito altas, será difícil definir o som.
- Tocar principalmente os graves, em todas as casas, procurando por algum eventual zumbido - ruído de trastejamento. Esse é o ruído que aparece quando a corda vibra e acaba encostando em um traste que não era para ter encostado.
- Checar inícios de rachadura (principalmente no braço e cavalete), ou rachaduras que podem ter sido remendadas. Se o violão novo já vier com uma rachadura pequena, a tendência é que a tensão das cordas com o tempo vai forçar mais ainda essa parte resultando possivelmente na quebra do instrumento.
Como são instrumentos feitos em linhas de montagem, muitas vezes o cuidado parece não ser a prioridade na fabricação, mas é possível encontrarmos instrumentos acima do esperado para aquela série. Por isso é interessante, antes de adquirir o instrumento, provar vários em várias lojas, para ver o que está melhor entre eles.
Ainda sobre os instrumentos de fábrica, a Yamaha, Michael e Crafter fazem bons violões. Mas aí entramos em uma outra questão - vale a pena ficar comprando um violão um pouco melhor a cada ano ou esperar para investir? Eu acredito que como primeiro violão, a Giannini e Di Giorgio dão conta. Depois, ao invés de comprar um violão Yamaha de fábrica, sugiro economizar um pouco mais, e adquirir um violão modelo estudante de algum luthier. A diferença será gigantesca, e o preço não irá variar tanto.
Há um tempo atrás publiquei uma lista dos principais luthiers em atividade no Brasil. Caso interessar possa, a lista está aqui - Lista de Luthiers em Atividade no Brasil.
A escolha de instrumentos artesanais dependem bastante do gosto pessoal, mas grande parte dos luthiers brasileiros tem um trabalho reconhecido e que não vai decepcionar o comprador. Posso citar aqui alguns nomes de famosos luthiers do Brasil cujo trabalho é reconhecido até internacionalmente: Sérgio Abreu, Jorge Raphael, Samuel Carvalho, Cláudio Arone, Antonio Tessarin, João Batista, Lineu Bravo.
O fator principal no momento da encomenda do violão é a decisão de que madeira será feita o tampo do instrumento. Tradicionalmente é usado uma de duas espécies de madeira - pinho ou cedro. A partir daí é o gosto do músico que vai mandar na escolha do tampo. O cedro tem um som forte e vibrante, e já “nasce” com o som que vai ter praticamente durante toda sua vida. O pinho tem um som mais penetrante e definido. Começa com um som um pouco fechado, e conforme vai amadurecendo vai abrindo-se e ficando cada vez melhor em matéria de projeção e nitidez.
As madeiras da lateral e fundo, segundo o famoso luthier espanhol Antonio Torres (que fez um experimento com a lateral e fundo feitas de papelão e não teve grandes diferenças sonoras), não são tão importantes no quesito timbre. Tradicionalmente é usado o jacarandá-da-bahia, mas como a espécie está em extinção, madeiras alternativas vêm sendo usadas para substituí-la: jacarandá-indiano, muiracatiara, entre outras.
Enfim, todo investimento deve ser bem calculado. Por isso sempre peça para seu professor ou amigo acompanhá-lo na compra do instrumento, experimente violões diferentes, peça opinião para todo mundo que você puder. E se nada disso der certo, pode deixar um comentário que eu também posso ajudar.








